Mais um dia de sol. Como todos os outros. Não poderia ser de outro jeito. Chovia fora dos globos ainda, claro. Mas do lado de dentro não se podia ver desde que os sistemas de climatização chegaram ao seu nível de excelência atual. A07.22185.00101 se levantou pontualmente às seis e trinta, como se levantava todos os dias. Passou pela descontaminação e depois vestiu seu uniforme branco padrão. Tomou seu café balanceado, uma dieta de proteínas, vitaminas e minerais; recomendada pelo centro de nutrição, e saiu. Seu rosto mostrava um sorriso automático enquanto cumprimentava vizinhos e colegas de trabalho. Todos se dirigindo até a estação para pegar o comboio elétrico em seu horário designado, precisamente às sete horas e quatro minutos. Mais uma grande idéia da Comissão de Administração Central para melhorar o sistema de transporte coletivo. Todos os moradores de determinada região recebem um horário especifico para embarcar, com as distâncias para as suas respectivas atividades produtivas já devidamente calculadas. Desde o dia da implantação o sistema tem operado sem erros e com 100% de aprovação da população. O pensamento geral foi de que serviu para eliminar ainda o que restava dos desagradáveis atrasos que diminuíam o rendimento.
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A07.22, como era chamado em seu círculo pessoal, se separou de seus colegas e desceu em direção a unidade de saúde mais próxima para tomar sua dose mensal. São milhares dessas unidades espalhadas por todo o globo que protege o que antes era a cidade de São Paulo. Antes, pois a divisão em cidades foi sabiamente abolida depois da unificação. Como toda a nação compartilhava das mesmas diretrizes básicas a antiga divisão estimulava descontentamento e competição. A07.22 chegou no horário estipulado e colocou seu braço dentro de uma maquina retangular que leu o registro criptografado no chip em seu braço e lhe aplicou o coquetel. Todo o processo demorou cravados 4.2 segundos. Mesmo assim é garantido que em breve algumas mudanças no sistema diminuam esse tempo ineficiente, provavelmente com uma alteração no calendário aprovado que combine a vacinação com alguma outra atividade útil. Esse procedimento garantia um mês livre da maioria das doenças e infecções que ainda resistiam. Em alguns casos crônicos e específicos, a comissão médica fazia uma análise: calculava o custo de tratamento com uma estimativa de produção futura e das chances de cura. Depois de grande debate e após aprovação final ficou decidido que nos casos de altos custos e pouca expectativa de vida é preferível facilitar a passagem do paciente, da mesma forma que já era feito ao fim do ciclo produtivo. A economia foi absurda. Mas com sorte algumas das próximas descobertas em manipulação genética reduzirão esses casos à quase zero.
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Ele comprimiu o braço por alguns instantes e encheu seus pulmões com o ar filtrado do globo enquanto se dirigia para sua divisão. Aprendeu durante sua formação, como todos os outros, que o ar da antiga São Paulo era tóxico, próximo de irrespirável, e que os céus da cidade normalmente apresentavam uma tonalidade cinza amarelada. Difícil até mesmo de imaginar tal coisa. Ainda mais impressionante era saber que os antigos bárbaros tinham como habito respirar uma fumaça diretamente da queima de algumas substâncias em um papel. Como se o ar poluído da cidade não fosse o suficiente. Ele sacudiu sua a cabeça e riu da idéia idiota, mas, por um instante, lá estava aquele pensamento de novo. Fogo. Como ele viu pela primeira vez...
Ele comprimiu o braço por alguns instantes e encheu seus pulmões com o ar filtrado do globo enquanto se dirigia para sua divisão. Aprendeu durante sua formação, como todos os outros, que o ar da antiga São Paulo era tóxico, próximo de irrespirável, e que os céus da cidade normalmente apresentavam uma tonalidade cinza amarelada. Difícil até mesmo de imaginar tal coisa. Ainda mais impressionante era saber que os antigos bárbaros tinham como habito respirar uma fumaça diretamente da queima de algumas substâncias em um papel. Como se o ar poluído da cidade não fosse o suficiente. Ele sacudiu sua a cabeça e riu da idéia idiota, mas, por um instante, lá estava aquele pensamento de novo. Fogo. Como ele viu pela primeira vez...
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Os relatos históricos oficiais contam que desde o início do século XXI, após o alerta dos cientistas sobre o aquecimento global, a comunidade humana resolveu tomar medidas para impedir que o pior acontecesse. Entre outras coisas suprimiu-se o uso de combustíveis fósseis, altamente poluentes, a devastação das florestas para criação de gado e extração de madeira e a poluição descontrolada de nossas fontes de água. Eventualmente fomos aprendendo a conviver melhor com nosso planeta e por conseqüência melhor uns com os outros. Com ajuda da recém fundada Administração Central gradativamente os hábitos nocivos, como esportes de contato físico e abusos de substâncias tóxicas como álcool, foram sendo removidos do comportamento da sociedade agradecida. Sim, nossos antepassados eram mesmo seres estranhos. Acreditem se quiser, mas antes da Revolução Vegan, os seres humanos matavam animais, como vacas, brutalmente, e depois arrancavam a carne de seus ossos e comiam, com os restos de gordura ainda grudados no cadáver animal. Mas com o fim da divisão social opressora e do individualismo irracional erradicou-se também toda nossa violência e, após anos de existência nesse planeta podemos finalmente afirmar que evoluímos. E, embora ainda estejamos sempre buscando melhorar, a cada qüinqüênio os novos planos de metas deixam a nova humanidade cada vez mais perto da tão sonhada perfeição.
Os relatos históricos oficiais contam que desde o início do século XXI, após o alerta dos cientistas sobre o aquecimento global, a comunidade humana resolveu tomar medidas para impedir que o pior acontecesse. Entre outras coisas suprimiu-se o uso de combustíveis fósseis, altamente poluentes, a devastação das florestas para criação de gado e extração de madeira e a poluição descontrolada de nossas fontes de água. Eventualmente fomos aprendendo a conviver melhor com nosso planeta e por conseqüência melhor uns com os outros. Com ajuda da recém fundada Administração Central gradativamente os hábitos nocivos, como esportes de contato físico e abusos de substâncias tóxicas como álcool, foram sendo removidos do comportamento da sociedade agradecida. Sim, nossos antepassados eram mesmo seres estranhos. Acreditem se quiser, mas antes da Revolução Vegan, os seres humanos matavam animais, como vacas, brutalmente, e depois arrancavam a carne de seus ossos e comiam, com os restos de gordura ainda grudados no cadáver animal. Mas com o fim da divisão social opressora e do individualismo irracional erradicou-se também toda nossa violência e, após anos de existência nesse planeta podemos finalmente afirmar que evoluímos. E, embora ainda estejamos sempre buscando melhorar, a cada qüinqüênio os novos planos de metas deixam a nova humanidade cada vez mais perto da tão sonhada perfeição.
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Estranhamente A07.22 não se sentia tão perfeito. Na verdade ele não se lembrava da última vez que havia sentido qualquer coisa. Também não lembrava de se incomodar com isso. Até a semana anterior. Até o fogo. A07.22 exercia sua função social no Complexo de Segurança como um analista dos sistemas de observação comunitária. Basicamente ele acompanhava o trabalho de todo um conjunto de câmeras e monitores de uma determinada região. Esses sistemas garantiam que a administração central se manteria informada sobre os acontecimentos de dentro do globo para que pudesse intervir, caso algum equipamento apresentasse mau funcionamento por exemplo. Nesse dia ele cumpria seu horário como sempre fazia e caminhava de seu centro de condicionamento físico após mais um dia de atividades. Todo o episódio demorou apenas alguns segundos pelo que se lembrava, mas é verdade que talvez não estivesse conseguindo raciocinar corretamente. Caminhava até o transporte, aproveitando o fim de tarde, e parou por um instante para observar uma fonte luminosa que espirrava jatos de água do outro lado da rua quando, sem o menor aviso, um carro cruzou por cima da calçada, passando apenas alguns centímetros de sua perna, para aterrissar dentro de uma casa de sucos, arrebentando as vidraças e atropelando alguns dos freqüentadores. Sem contar nas pessoas que passavam pela frente no momento.
Estranhamente A07.22 não se sentia tão perfeito. Na verdade ele não se lembrava da última vez que havia sentido qualquer coisa. Também não lembrava de se incomodar com isso. Até a semana anterior. Até o fogo. A07.22 exercia sua função social no Complexo de Segurança como um analista dos sistemas de observação comunitária. Basicamente ele acompanhava o trabalho de todo um conjunto de câmeras e monitores de uma determinada região. Esses sistemas garantiam que a administração central se manteria informada sobre os acontecimentos de dentro do globo para que pudesse intervir, caso algum equipamento apresentasse mau funcionamento por exemplo. Nesse dia ele cumpria seu horário como sempre fazia e caminhava de seu centro de condicionamento físico após mais um dia de atividades. Todo o episódio demorou apenas alguns segundos pelo que se lembrava, mas é verdade que talvez não estivesse conseguindo raciocinar corretamente. Caminhava até o transporte, aproveitando o fim de tarde, e parou por um instante para observar uma fonte luminosa que espirrava jatos de água do outro lado da rua quando, sem o menor aviso, um carro cruzou por cima da calçada, passando apenas alguns centímetros de sua perna, para aterrissar dentro de uma casa de sucos, arrebentando as vidraças e atropelando alguns dos freqüentadores. Sem contar nas pessoas que passavam pela frente no momento.
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A07.22 pulou rápido para o lado e mal conseguia respirar quando olhou em direção ao carro. Era realmente um carro. Um carro movido a gasolina, como os que ele via em imagens antigas. Era totalmente absurdo, mas não era o pior. Amarrado na frente do carro estava um homem com roupas que A07.22 sabia serem de funcionários da CAC. Mas esse homem parecia um tanto quanto gordo. Como se tivesse saído das páginas de um livro de histórias antigas. Ele puxava as correntes que o prendiam ao carro e gritava por socorro. Por todo carro e por sua pele cheia de marcas e hematomas escorria um líquido viscoso e de cheiro forte. Ainda caído no chão A07.22 viu os sobreviventes do acidente que pulavam por sobre os corpos caídos nos chão, desesperados com cacos de vidro sobre o cabelo e pisando nas poças de sangue que se formavam na calçada e escorriam em sua direção. Ele queria se levantar, mas não conseguia. Suas mãos tremiam e tentavam atravessar o concreto e se agarrar no chão. De dentro do carro pularam dois homens estranhos. Eram jovens. Um deles tinha cabelos compridos horríveis e calças feitas de um material azul. O outro, que aparentemente guiava o carro, tinha olhos claros e vestia uma espécie de casaco preto que brilhava sob a iluminação da rua. Eles se cumprimentaram batendo as mãos no ar e discutiam alguma coisa enquanto andavam até a frente do carro. O homem preso na frente gritava mais alto, algo como ser membro de alguma coisa, e agora implorava por ajuda. Mas ninguém conseguia se mover. A visão de tal desastre era algo com o qual as pessoas não estavam preparadas para lidar. Uma pequena chama se acendeu na mão do jovem mais baixo, aquele das calças esquisitas, e voou até em cima do carro que imediatamente se acendeu por inteiro. As chamas se espalharam pelo corpo do outro homem que se contorcia aos berros nas correntes, enquanto seu corpo se derretia. A07.22 reuniu forças para se arrastar para longe e essas foram suas últimas lembranças do evento: A luz da explosão do carro que levou toda a casa de sucos e parte da rua. O vidro das janelas dos prédios que se partiram com a explosão, caindo, refletindo as chamas. O fogo, que ele viu pela primeira vez, como uma força sobrenatural se espalhando pelas árvores. E o sangue, sangue que caia como chuva em seu rosto, escorrendo dos corpos lançados ao ar pela explosão, embalados pela risada dos dois homens que desapareciam na noite, a risada mais perfeita que ele já tinha ouvido. O som da verdadeira felicidade.
A07.22 pulou rápido para o lado e mal conseguia respirar quando olhou em direção ao carro. Era realmente um carro. Um carro movido a gasolina, como os que ele via em imagens antigas. Era totalmente absurdo, mas não era o pior. Amarrado na frente do carro estava um homem com roupas que A07.22 sabia serem de funcionários da CAC. Mas esse homem parecia um tanto quanto gordo. Como se tivesse saído das páginas de um livro de histórias antigas. Ele puxava as correntes que o prendiam ao carro e gritava por socorro. Por todo carro e por sua pele cheia de marcas e hematomas escorria um líquido viscoso e de cheiro forte. Ainda caído no chão A07.22 viu os sobreviventes do acidente que pulavam por sobre os corpos caídos nos chão, desesperados com cacos de vidro sobre o cabelo e pisando nas poças de sangue que se formavam na calçada e escorriam em sua direção. Ele queria se levantar, mas não conseguia. Suas mãos tremiam e tentavam atravessar o concreto e se agarrar no chão. De dentro do carro pularam dois homens estranhos. Eram jovens. Um deles tinha cabelos compridos horríveis e calças feitas de um material azul. O outro, que aparentemente guiava o carro, tinha olhos claros e vestia uma espécie de casaco preto que brilhava sob a iluminação da rua. Eles se cumprimentaram batendo as mãos no ar e discutiam alguma coisa enquanto andavam até a frente do carro. O homem preso na frente gritava mais alto, algo como ser membro de alguma coisa, e agora implorava por ajuda. Mas ninguém conseguia se mover. A visão de tal desastre era algo com o qual as pessoas não estavam preparadas para lidar. Uma pequena chama se acendeu na mão do jovem mais baixo, aquele das calças esquisitas, e voou até em cima do carro que imediatamente se acendeu por inteiro. As chamas se espalharam pelo corpo do outro homem que se contorcia aos berros nas correntes, enquanto seu corpo se derretia. A07.22 reuniu forças para se arrastar para longe e essas foram suas últimas lembranças do evento: A luz da explosão do carro que levou toda a casa de sucos e parte da rua. O vidro das janelas dos prédios que se partiram com a explosão, caindo, refletindo as chamas. O fogo, que ele viu pela primeira vez, como uma força sobrenatural se espalhando pelas árvores. E o sangue, sangue que caia como chuva em seu rosto, escorrendo dos corpos lançados ao ar pela explosão, embalados pela risada dos dois homens que desapareciam na noite, a risada mais perfeita que ele já tinha ouvido. O som da verdadeira felicidade.
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Ele acordou em pulo, direto em uma sala branca desconhecida. Estava deitado em uma cama, preso a vários aparelhos médicos. Assustado, já se preparava para se levantar quando a porta se abriu. O agente público de saúde H05.19 explicou que o acidente foi causado por uma pane no sistema de transporte. Aparentemente havia uma bolsa de gás presa por muitos anos debaixo daquele ponto. De alguma forma ela devia ter se liberado e possivelmente uma fagulha causou a detonação. Assegurou que não havia nada com que se preocupar. A07.22 estava muito bem fisicamente, o que era bom porque nem todos tiveram a mesma sorte, e que qualquer confusão mental certamente estava relacionada com a exposição ao gás.
Ele acordou em pulo, direto em uma sala branca desconhecida. Estava deitado em uma cama, preso a vários aparelhos médicos. Assustado, já se preparava para se levantar quando a porta se abriu. O agente público de saúde H05.19 explicou que o acidente foi causado por uma pane no sistema de transporte. Aparentemente havia uma bolsa de gás presa por muitos anos debaixo daquele ponto. De alguma forma ela devia ter se liberado e possivelmente uma fagulha causou a detonação. Assegurou que não havia nada com que se preocupar. A07.22 estava muito bem fisicamente, o que era bom porque nem todos tiveram a mesma sorte, e que qualquer confusão mental certamente estava relacionada com a exposição ao gás.
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Mesmo assim, com toda a explicação lógica, A07.22 não se convenceu. Ainda que os programas de notícias da televisão pública reportassem essa mesma versão. Podia parecer absurdo, desconfiar dessa maneira, mas a imagem tinha sido marcada em sua mente com força demais para ser ignorada desse jeito. Não pareceia ser apenas um delírio, ele nunca tinha tido muita imaginação. E ainda que se sentisse meio bobo, depois do dia de descanso, que recebeu para se recuperar melhor, ele ia se preparar para tirar a história a limpo.
Mesmo assim, com toda a explicação lógica, A07.22 não se convenceu. Ainda que os programas de notícias da televisão pública reportassem essa mesma versão. Podia parecer absurdo, desconfiar dessa maneira, mas a imagem tinha sido marcada em sua mente com força demais para ser ignorada desse jeito. Não pareceia ser apenas um delírio, ele nunca tinha tido muita imaginação. E ainda que se sentisse meio bobo, depois do dia de descanso, que recebeu para se recuperar melhor, ele ia se preparar para tirar a história a limpo.
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Infelizmente a lógica estava contra ele, afinal, um carro explodindo no meio da rua não era visto desde o antigo Rio de Janeiro dos anos 2-10. No dia seguinte ele passou no mesmo local somente para descobrir que a rua estava fechada para reformas estruturais. Mais tarde resolveu fazer a prova definitiva: ignorou seu horário de almoço e foi verificar os arquivos de outra seção do Complexo de Segurança, um procedimento altamente irregular. Qual não foi sua surpresa ao descobrir que as imagens mostravam exatamente o que a versão oficial contava: a rua em movimento e, de repente, um clarão, como se algo, como um bolsão de gás, houvesse acabado de explodir. De certa forma ficou aliviado.
Infelizmente a lógica estava contra ele, afinal, um carro explodindo no meio da rua não era visto desde o antigo Rio de Janeiro dos anos 2-10. No dia seguinte ele passou no mesmo local somente para descobrir que a rua estava fechada para reformas estruturais. Mais tarde resolveu fazer a prova definitiva: ignorou seu horário de almoço e foi verificar os arquivos de outra seção do Complexo de Segurança, um procedimento altamente irregular. Qual não foi sua surpresa ao descobrir que as imagens mostravam exatamente o que a versão oficial contava: a rua em movimento e, de repente, um clarão, como se algo, como um bolsão de gás, houvesse acabado de explodir. De certa forma ficou aliviado.
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Pelo menos foi o que pareceu, mas conforme a semana transcorreu algo parecia definitivamente fora do lugar. Aos poucos A07.22 começou a questionar algumas coisas. Ele não entendia como poderia ter imaginado tão bem algo que nunca tinha visto. Desconcentrava-se de sua atividade, pior, se pegava desgostando de sua atividade. O que era um absurdo, ela havia lhe sido selecionada baseada em precisos testes de personalidade e capacidade desde que terminou o primeiro ciclo de formação. Ainda mais estúpido foi seu crescente descontentamento com as refeições diárias. Depois de anos de testes e pesquisas para atingir a combinação perfeita de nutrientes, não fazia o menor sentido estranhar a falta de variedade. Alimentação é apenas uma função biológica e a eficiência no atendimento dessa função foi o que tornou o fim da fome no possível.
Pelo menos foi o que pareceu, mas conforme a semana transcorreu algo parecia definitivamente fora do lugar. Aos poucos A07.22 começou a questionar algumas coisas. Ele não entendia como poderia ter imaginado tão bem algo que nunca tinha visto. Desconcentrava-se de sua atividade, pior, se pegava desgostando de sua atividade. O que era um absurdo, ela havia lhe sido selecionada baseada em precisos testes de personalidade e capacidade desde que terminou o primeiro ciclo de formação. Ainda mais estúpido foi seu crescente descontentamento com as refeições diárias. Depois de anos de testes e pesquisas para atingir a combinação perfeita de nutrientes, não fazia o menor sentido estranhar a falta de variedade. Alimentação é apenas uma função biológica e a eficiência no atendimento dessa função foi o que tornou o fim da fome no possível.
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Mas no fundo ele sentia algo estranho. Algo que ele não sabia explicar. Ele sentia raiva. Raiva, sobretudo dele mesmo. E ainda mais especificamente de J02.01. Explico: J02.01 era o supervisor da sua divisão e A07.22 sempre o considerou um funcionário exemplar, mas recentemente tudo que ele dizia parecia ser uma afronta pessoal. Ele foi obrigado a dar uma advertência por A07.22 ter sido pego enquanto verificava os arquivos da outra seção e depois de ter explicado os motivos de ter feito tal coisa J02.01 sempre fazia alguma referência ao episódio do ‘carro em chamas no meio da rua’ entre meios sorrisos do resto do departamento. A07.22 se lembrava de que as coisas sempre tinham sido assim. Seu supervisor sempre ficava chamando sua atenção. Se não era porque já fazia mais de uma semana que não ia ao centro capilar e assim seu cabelo já estaria grande demais, era porque havia uma mancha na manga de seu uniforme. No entanto isso nunca o havia incomodado antes. Ele até considerava que era parte da obrigação do supervisor apontar suas falhas como pessoa para que ele pudesse melhorar, mas agora, embora por fora ele continuasse a com mesma expressão calma, por dentro ele fervia.
Mas no fundo ele sentia algo estranho. Algo que ele não sabia explicar. Ele sentia raiva. Raiva, sobretudo dele mesmo. E ainda mais especificamente de J02.01. Explico: J02.01 era o supervisor da sua divisão e A07.22 sempre o considerou um funcionário exemplar, mas recentemente tudo que ele dizia parecia ser uma afronta pessoal. Ele foi obrigado a dar uma advertência por A07.22 ter sido pego enquanto verificava os arquivos da outra seção e depois de ter explicado os motivos de ter feito tal coisa J02.01 sempre fazia alguma referência ao episódio do ‘carro em chamas no meio da rua’ entre meios sorrisos do resto do departamento. A07.22 se lembrava de que as coisas sempre tinham sido assim. Seu supervisor sempre ficava chamando sua atenção. Se não era porque já fazia mais de uma semana que não ia ao centro capilar e assim seu cabelo já estaria grande demais, era porque havia uma mancha na manga de seu uniforme. No entanto isso nunca o havia incomodado antes. Ele até considerava que era parte da obrigação do supervisor apontar suas falhas como pessoa para que ele pudesse melhorar, mas agora, embora por fora ele continuasse a com mesma expressão calma, por dentro ele fervia.
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Os dias se seguiram e A07.22 se sentia infeliz. Todas as atividades que antes ele executava com prazer e perfeição agora, em tão pouco tempo, haviam se tornado um sacrifício. Ele tinha sonhos com aquela noite e acordava triste por se ver preso a mesma rotina modorrenta. Por isso nessa manhã, após tomar o coquetel medicinal, ele caminhava mais lentamente do que de costume, com seus pensamentos se dividindo entre o ar puro do globo e a ridícula possibilidade de encontrar os tais cigarros em algum lugar, só para descobrir como eles eram afinal. Normalmente ele estaria mais excitado. Hoje deveria ser o dia em que finalmente iria receber o resultado do teste de compatibilidade genética, que iria definir uma parceira ideal para que ele pudesse iniciar um processo familiar e reprodutivo, o sonho de todo homem moderno. Há algumas semanas atrás ele estaria mais animado, e com razão, porém agora ele tinha chegado à estranha conclusão de que todo esse processo era muito imbecil. Ele não queria estabilidade e uma família. Ele queria confusão, dúvida, surpresas. Definitivamente nada do que um homem moderno e responsável com a comunidade deveria querer. Ou pelo menos era o que ele pensava.
Os dias se seguiram e A07.22 se sentia infeliz. Todas as atividades que antes ele executava com prazer e perfeição agora, em tão pouco tempo, haviam se tornado um sacrifício. Ele tinha sonhos com aquela noite e acordava triste por se ver preso a mesma rotina modorrenta. Por isso nessa manhã, após tomar o coquetel medicinal, ele caminhava mais lentamente do que de costume, com seus pensamentos se dividindo entre o ar puro do globo e a ridícula possibilidade de encontrar os tais cigarros em algum lugar, só para descobrir como eles eram afinal. Normalmente ele estaria mais excitado. Hoje deveria ser o dia em que finalmente iria receber o resultado do teste de compatibilidade genética, que iria definir uma parceira ideal para que ele pudesse iniciar um processo familiar e reprodutivo, o sonho de todo homem moderno. Há algumas semanas atrás ele estaria mais animado, e com razão, porém agora ele tinha chegado à estranha conclusão de que todo esse processo era muito imbecil. Ele não queria estabilidade e uma família. Ele queria confusão, dúvida, surpresas. Definitivamente nada do que um homem moderno e responsável com a comunidade deveria querer. Ou pelo menos era o que ele pensava.
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De tanto se arrastar pela rua A07.22 se atrasou para suas atividades do dia. Atrasou por volta de 20 minutos. Ele nunca havia se atrasado antes. Por isso ele não estava lá quando todo o prédio da Central de Segurança foi rápidamente evacuado, com os operadores enviados de volta para suas casas e substituídos por técnicos da CAC. Ele subiu até seu andar e viu que as câmeras internas estavam desligadas e que vários estranhos estavam sentados nos monitores falando freneticamente através de comunicadores. Parecia que algo estava acontecendo por todo o globo, mas, antes que ele pudesse ver o que era, alguém o puxou pelo braço e o levou até uma sala no canto. Era J02.01, também vestido com uniforme da CAC, e ele estava furioso, como A07.22 nunca tinha visto ninguém. Começou a gritar, querendo saber o que é que ele fazia lá, se ele não tinha ouvido o alerta. Ao explicar que se atrasou e que queria saber o que acontecia J02.01 ficou ainda pior. Informou que A07.22 seria enviado para re-educação, o que consistia em atividades úteis para a comunidade e que tinham a vantagem de ensinar humildade e disciplina aos participantes, como limpeza dos sistemas de filtro de esgoto, e também que sua licença familiar seria bloqueada até segunda ordem. Nada mais justo se querem saber.
De tanto se arrastar pela rua A07.22 se atrasou para suas atividades do dia. Atrasou por volta de 20 minutos. Ele nunca havia se atrasado antes. Por isso ele não estava lá quando todo o prédio da Central de Segurança foi rápidamente evacuado, com os operadores enviados de volta para suas casas e substituídos por técnicos da CAC. Ele subiu até seu andar e viu que as câmeras internas estavam desligadas e que vários estranhos estavam sentados nos monitores falando freneticamente através de comunicadores. Parecia que algo estava acontecendo por todo o globo, mas, antes que ele pudesse ver o que era, alguém o puxou pelo braço e o levou até uma sala no canto. Era J02.01, também vestido com uniforme da CAC, e ele estava furioso, como A07.22 nunca tinha visto ninguém. Começou a gritar, querendo saber o que é que ele fazia lá, se ele não tinha ouvido o alerta. Ao explicar que se atrasou e que queria saber o que acontecia J02.01 ficou ainda pior. Informou que A07.22 seria enviado para re-educação, o que consistia em atividades úteis para a comunidade e que tinham a vantagem de ensinar humildade e disciplina aos participantes, como limpeza dos sistemas de filtro de esgoto, e também que sua licença familiar seria bloqueada até segunda ordem. Nada mais justo se querem saber.
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Mas A07.22 não se importou. Ele não sabia a razão, mas se sentia estranhamente leve. E quando J02.01 ordenou que ele saísse, de repente, ele entendeu. Estava acontecendo de novo, dessa vez por toda parte. Talvez ele não estivesse sozinho, talvez não fosse apenas ele. Talvez todos estivessem esperando, aguardando em silêncio, e agora, ao mesmo tempo, todos tivessem decidido parar de fingir. É possível que a água da represa estivesse sendo contida por tanto tempo, e a pressão se tornado tão alta, que de repente ela simplesmente explodiu. É possível que ela precisasse apenas de uma fagulha para arrebentar as comportas e tomar as ruas com uma onda de violência e sangue. Sangue. Ao pensar nisso A07.22 trancou a porta da sala, agora com as câmeras desativadas, se esticou e alcançou um objeto de decoração da estante, uma pequena estátuta de bronze, e sentiu seu peso nas mãos: iria servir. Olhou para seu supervisor sentado do outro lado da mesa e enquanto caminhava em sua direção não pôde se conter em abrir um grande sorriso. Um sorriso verdadeiro. Da verdadeira felicidade. Pois ele viu fogo e sangue e, por aquilo que antes chamavam de Deus, ele veria outra vez...
Mas A07.22 não se importou. Ele não sabia a razão, mas se sentia estranhamente leve. E quando J02.01 ordenou que ele saísse, de repente, ele entendeu. Estava acontecendo de novo, dessa vez por toda parte. Talvez ele não estivesse sozinho, talvez não fosse apenas ele. Talvez todos estivessem esperando, aguardando em silêncio, e agora, ao mesmo tempo, todos tivessem decidido parar de fingir. É possível que a água da represa estivesse sendo contida por tanto tempo, e a pressão se tornado tão alta, que de repente ela simplesmente explodiu. É possível que ela precisasse apenas de uma fagulha para arrebentar as comportas e tomar as ruas com uma onda de violência e sangue. Sangue. Ao pensar nisso A07.22 trancou a porta da sala, agora com as câmeras desativadas, se esticou e alcançou um objeto de decoração da estante, uma pequena estátuta de bronze, e sentiu seu peso nas mãos: iria servir. Olhou para seu supervisor sentado do outro lado da mesa e enquanto caminhava em sua direção não pôde se conter em abrir um grande sorriso. Um sorriso verdadeiro. Da verdadeira felicidade. Pois ele viu fogo e sangue e, por aquilo que antes chamavam de Deus, ele veria outra vez...
