segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Os Homens Perfeitos

Mais um dia de sol. Como todos os outros. Não poderia ser de outro jeito. Chovia fora dos globos ainda, claro. Mas do lado de dentro não se podia ver desde que os sistemas de climatização chegaram ao seu nível de excelência atual. A07.22185.00101 se levantou pontualmente às seis e trinta, como se levantava todos os dias. Passou pela descontaminação e depois vestiu seu uniforme branco padrão. Tomou seu café balanceado, uma dieta de proteínas, vitaminas e minerais; recomendada pelo centro de nutrição, e saiu. Seu rosto mostrava um sorriso automático enquanto cumprimentava vizinhos e colegas de trabalho. Todos se dirigindo até a estação para pegar o comboio elétrico em seu horário designado, precisamente às sete horas e quatro minutos. Mais uma grande idéia da Comissão de Administração Central para melhorar o sistema de transporte coletivo. Todos os moradores de determinada região recebem um horário especifico para embarcar, com as distâncias para as suas respectivas atividades produtivas já devidamente calculadas. Desde o dia da implantação o sistema tem operado sem erros e com 100% de aprovação da população. O pensamento geral foi de que serviu para eliminar ainda o que restava dos desagradáveis atrasos que diminuíam o rendimento.
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A07.22, como era chamado em seu círculo pessoal, se separou de seus colegas e desceu em direção a unidade de saúde mais próxima para tomar sua dose mensal. São milhares dessas unidades espalhadas por todo o globo que protege o que antes era a cidade de São Paulo. Antes, pois a divisão em cidades foi sabiamente abolida depois da unificação. Como toda a nação compartilhava das mesmas diretrizes básicas a antiga divisão estimulava descontentamento e competição. A07.22 chegou no horário estipulado e colocou seu braço dentro de uma maquina retangular que leu o registro criptografado no chip em seu braço e lhe aplicou o coquetel. Todo o processo demorou cravados 4.2 segundos. Mesmo assim é garantido que em breve algumas mudanças no sistema diminuam esse tempo ineficiente, provavelmente com uma alteração no calendário aprovado que combine a vacinação com alguma outra atividade útil. Esse procedimento garantia um mês livre da maioria das doenças e infecções que ainda resistiam. Em alguns casos crônicos e específicos, a comissão médica fazia uma análise: calculava o custo de tratamento com uma estimativa de produção futura e das chances de cura. Depois de grande debate e após aprovação final ficou decidido que nos casos de altos custos e pouca expectativa de vida é preferível facilitar a passagem do paciente, da mesma forma que já era feito ao fim do ciclo produtivo. A economia foi absurda. Mas com sorte algumas das próximas descobertas em manipulação genética reduzirão esses casos à quase zero.
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Ele comprimiu o braço por alguns instantes e encheu seus pulmões com o ar filtrado do globo enquanto se dirigia para sua divisão. Aprendeu durante sua formação, como todos os outros, que o ar da antiga São Paulo era tóxico, próximo de irrespirável, e que os céus da cidade normalmente apresentavam uma tonalidade cinza amarelada. Difícil até mesmo de imaginar tal coisa. Ainda mais impressionante era saber que os antigos bárbaros tinham como habito respirar uma fumaça diretamente da queima de algumas substâncias em um papel. Como se o ar poluído da cidade não fosse o suficiente. Ele sacudiu sua a cabeça e riu da idéia idiota, mas, por um instante, lá estava aquele pensamento de novo. Fogo. Como ele viu pela primeira vez...
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Os relatos históricos oficiais contam que desde o início do século XXI, após o alerta dos cientistas sobre o aquecimento global, a comunidade humana resolveu tomar medidas para impedir que o pior acontecesse. Entre outras coisas suprimiu-se o uso de combustíveis fósseis, altamente poluentes, a devastação das florestas para criação de gado e extração de madeira e a poluição descontrolada de nossas fontes de água. Eventualmente fomos aprendendo a conviver melhor com nosso planeta e por conseqüência melhor uns com os outros. Com ajuda da recém fundada Administração Central gradativamente os hábitos nocivos, como esportes de contato físico e abusos de substâncias tóxicas como álcool, foram sendo removidos do comportamento da sociedade agradecida. Sim, nossos antepassados eram mesmo seres estranhos. Acreditem se quiser, mas antes da Revolução Vegan, os seres humanos matavam animais, como vacas, brutalmente, e depois arrancavam a carne de seus ossos e comiam, com os restos de gordura ainda grudados no cadáver animal. Mas com o fim da divisão social opressora e do individualismo irracional erradicou-se também toda nossa violência e, após anos de existência nesse planeta podemos finalmente afirmar que evoluímos. E, embora ainda estejamos sempre buscando melhorar, a cada qüinqüênio os novos planos de metas deixam a nova humanidade cada vez mais perto da tão sonhada perfeição.
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Estranhamente A07.22 não se sentia tão perfeito. Na verdade ele não se lembrava da última vez que havia sentido qualquer coisa. Também não lembrava de se incomodar com isso. Até a semana anterior. Até o fogo. A07.22 exercia sua função social no Complexo de Segurança como um analista dos sistemas de observação comunitária. Basicamente ele acompanhava o trabalho de todo um conjunto de câmeras e monitores de uma determinada região. Esses sistemas garantiam que a administração central se manteria informada sobre os acontecimentos de dentro do globo para que pudesse intervir, caso algum equipamento apresentasse mau funcionamento por exemplo. Nesse dia ele cumpria seu horário como sempre fazia e caminhava de seu centro de condicionamento físico após mais um dia de atividades. Todo o episódio demorou apenas alguns segundos pelo que se lembrava, mas é verdade que talvez não estivesse conseguindo raciocinar corretamente. Caminhava até o transporte, aproveitando o fim de tarde, e parou por um instante para observar uma fonte luminosa que espirrava jatos de água do outro lado da rua quando, sem o menor aviso, um carro cruzou por cima da calçada, passando apenas alguns centímetros de sua perna, para aterrissar dentro de uma casa de sucos, arrebentando as vidraças e atropelando alguns dos freqüentadores. Sem contar nas pessoas que passavam pela frente no momento.
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A07.22 pulou rápido para o lado e mal conseguia respirar quando olhou em direção ao carro. Era realmente um carro. Um carro movido a gasolina, como os que ele via em imagens antigas. Era totalmente absurdo, mas não era o pior. Amarrado na frente do carro estava um homem com roupas que A07.22 sabia serem de funcionários da CAC. Mas esse homem parecia um tanto quanto gordo. Como se tivesse saído das páginas de um livro de histórias antigas. Ele puxava as correntes que o prendiam ao carro e gritava por socorro. Por todo carro e por sua pele cheia de marcas e hematomas escorria um líquido viscoso e de cheiro forte. Ainda caído no chão A07.22 viu os sobreviventes do acidente que pulavam por sobre os corpos caídos nos chão, desesperados com cacos de vidro sobre o cabelo e pisando nas poças de sangue que se formavam na calçada e escorriam em sua direção. Ele queria se levantar, mas não conseguia. Suas mãos tremiam e tentavam atravessar o concreto e se agarrar no chão. De dentro do carro pularam dois homens estranhos. Eram jovens. Um deles tinha cabelos compridos horríveis e calças feitas de um material azul. O outro, que aparentemente guiava o carro, tinha olhos claros e vestia uma espécie de casaco preto que brilhava sob a iluminação da rua. Eles se cumprimentaram batendo as mãos no ar e discutiam alguma coisa enquanto andavam até a frente do carro. O homem preso na frente gritava mais alto, algo como ser membro de alguma coisa, e agora implorava por ajuda. Mas ninguém conseguia se mover. A visão de tal desastre era algo com o qual as pessoas não estavam preparadas para lidar. Uma pequena chama se acendeu na mão do jovem mais baixo, aquele das calças esquisitas, e voou até em cima do carro que imediatamente se acendeu por inteiro. As chamas se espalharam pelo corpo do outro homem que se contorcia aos berros nas correntes, enquanto seu corpo se derretia. A07.22 reuniu forças para se arrastar para longe e essas foram suas últimas lembranças do evento: A luz da explosão do carro que levou toda a casa de sucos e parte da rua. O vidro das janelas dos prédios que se partiram com a explosão, caindo, refletindo as chamas. O fogo, que ele viu pela primeira vez, como uma força sobrenatural se espalhando pelas árvores. E o sangue, sangue que caia como chuva em seu rosto, escorrendo dos corpos lançados ao ar pela explosão, embalados pela risada dos dois homens que desapareciam na noite, a risada mais perfeita que ele já tinha ouvido. O som da verdadeira felicidade.
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Ele acordou em pulo, direto em uma sala branca desconhecida. Estava deitado em uma cama, preso a vários aparelhos médicos. Assustado, já se preparava para se levantar quando a porta se abriu. O agente público de saúde H05.19 explicou que o acidente foi causado por uma pane no sistema de transporte. Aparentemente havia uma bolsa de gás presa por muitos anos debaixo daquele ponto. De alguma forma ela devia ter se liberado e possivelmente uma fagulha causou a detonação. Assegurou que não havia nada com que se preocupar. A07.22 estava muito bem fisicamente, o que era bom porque nem todos tiveram a mesma sorte, e que qualquer confusão mental certamente estava relacionada com a exposição ao gás.
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Mesmo assim, com toda a explicação lógica, A07.22 não se convenceu. Ainda que os programas de notícias da televisão pública reportassem essa mesma versão. Podia parecer absurdo, desconfiar dessa maneira, mas a imagem tinha sido marcada em sua mente com força demais para ser ignorada desse jeito. Não pareceia ser apenas um delírio, ele nunca tinha tido muita imaginação. E ainda que se sentisse meio bobo, depois do dia de descanso, que recebeu para se recuperar melhor, ele ia se preparar para tirar a história a limpo.
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Infelizmente a lógica estava contra ele, afinal, um carro explodindo no meio da rua não era visto desde o antigo Rio de Janeiro dos anos 2-10. No dia seguinte ele passou no mesmo local somente para descobrir que a rua estava fechada para reformas estruturais. Mais tarde resolveu fazer a prova definitiva: ignorou seu horário de almoço e foi verificar os arquivos de outra seção do Complexo de Segurança, um procedimento altamente irregular. Qual não foi sua surpresa ao descobrir que as imagens mostravam exatamente o que a versão oficial contava: a rua em movimento e, de repente, um clarão, como se algo, como um bolsão de gás, houvesse acabado de explodir. De certa forma ficou aliviado.
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Pelo menos foi o que pareceu, mas conforme a semana transcorreu algo parecia definitivamente fora do lugar. Aos poucos A07.22 começou a questionar algumas coisas. Ele não entendia como poderia ter imaginado tão bem algo que nunca tinha visto. Desconcentrava-se de sua atividade, pior, se pegava desgostando de sua atividade. O que era um absurdo, ela havia lhe sido selecionada baseada em precisos testes de personalidade e capacidade desde que terminou o primeiro ciclo de formação. Ainda mais estúpido foi seu crescente descontentamento com as refeições diárias. Depois de anos de testes e pesquisas para atingir a combinação perfeita de nutrientes, não fazia o menor sentido estranhar a falta de variedade. Alimentação é apenas uma função biológica e a eficiência no atendimento dessa função foi o que tornou o fim da fome no possível.
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Mas no fundo ele sentia algo estranho. Algo que ele não sabia explicar. Ele sentia raiva. Raiva, sobretudo dele mesmo. E ainda mais especificamente de J02.01. Explico: J02.01 era o supervisor da sua divisão e A07.22 sempre o considerou um funcionário exemplar, mas recentemente tudo que ele dizia parecia ser uma afronta pessoal. Ele foi obrigado a dar uma advertência por A07.22 ter sido pego enquanto verificava os arquivos da outra seção e depois de ter explicado os motivos de ter feito tal coisa J02.01 sempre fazia alguma referência ao episódio do ‘carro em chamas no meio da rua’ entre meios sorrisos do resto do departamento. A07.22 se lembrava de que as coisas sempre tinham sido assim. Seu supervisor sempre ficava chamando sua atenção. Se não era porque já fazia mais de uma semana que não ia ao centro capilar e assim seu cabelo já estaria grande demais, era porque havia uma mancha na manga de seu uniforme. No entanto isso nunca o havia incomodado antes. Ele até considerava que era parte da obrigação do supervisor apontar suas falhas como pessoa para que ele pudesse melhorar, mas agora, embora por fora ele continuasse a com mesma expressão calma, por dentro ele fervia.
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Os dias se seguiram e A07.22 se sentia infeliz. Todas as atividades que antes ele executava com prazer e perfeição agora, em tão pouco tempo, haviam se tornado um sacrifício. Ele tinha sonhos com aquela noite e acordava triste por se ver preso a mesma rotina modorrenta. Por isso nessa manhã, após tomar o coquetel medicinal, ele caminhava mais lentamente do que de costume, com seus pensamentos se dividindo entre o ar puro do globo e a ridícula possibilidade de encontrar os tais cigarros em algum lugar, só para descobrir como eles eram afinal. Normalmente ele estaria mais excitado. Hoje deveria ser o dia em que finalmente iria receber o resultado do teste de compatibilidade genética, que iria definir uma parceira ideal para que ele pudesse iniciar um processo familiar e reprodutivo, o sonho de todo homem moderno. Há algumas semanas atrás ele estaria mais animado, e com razão, porém agora ele tinha chegado à estranha conclusão de que todo esse processo era muito imbecil. Ele não queria estabilidade e uma família. Ele queria confusão, dúvida, surpresas. Definitivamente nada do que um homem moderno e responsável com a comunidade deveria querer. Ou pelo menos era o que ele pensava.
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De tanto se arrastar pela rua A07.22 se atrasou para suas atividades do dia. Atrasou por volta de 20 minutos. Ele nunca havia se atrasado antes. Por isso ele não estava lá quando todo o prédio da Central de Segurança foi rápidamente evacuado, com os operadores enviados de volta para suas casas e substituídos por técnicos da CAC. Ele subiu até seu andar e viu que as câmeras internas estavam desligadas e que vários estranhos estavam sentados nos monitores falando freneticamente através de comunicadores. Parecia que algo estava acontecendo por todo o globo, mas, antes que ele pudesse ver o que era, alguém o puxou pelo braço e o levou até uma sala no canto. Era J02.01, também vestido com uniforme da CAC, e ele estava furioso, como A07.22 nunca tinha visto ninguém. Começou a gritar, querendo saber o que é que ele fazia lá, se ele não tinha ouvido o alerta. Ao explicar que se atrasou e que queria saber o que acontecia J02.01 ficou ainda pior. Informou que A07.22 seria enviado para re-educação, o que consistia em atividades úteis para a comunidade e que tinham a vantagem de ensinar humildade e disciplina aos participantes, como limpeza dos sistemas de filtro de esgoto, e também que sua licença familiar seria bloqueada até segunda ordem. Nada mais justo se querem saber.
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Mas A07.22 não se importou. Ele não sabia a razão, mas se sentia estranhamente leve. E quando J02.01 ordenou que ele saísse, de repente, ele entendeu. Estava acontecendo de novo, dessa vez por toda parte. Talvez ele não estivesse sozinho, talvez não fosse apenas ele. Talvez todos estivessem esperando, aguardando em silêncio, e agora, ao mesmo tempo, todos tivessem decidido parar de fingir. É possível que a água da represa estivesse sendo contida por tanto tempo, e a pressão se tornado tão alta, que de repente ela simplesmente explodiu. É possível que ela precisasse apenas de uma fagulha para arrebentar as comportas e tomar as ruas com uma onda de violência e sangue. Sangue. Ao pensar nisso A07.22 trancou a porta da sala, agora com as câmeras desativadas, se esticou e alcançou um objeto de decoração da estante, uma pequena estátuta de bronze, e sentiu seu peso nas mãos: iria servir. Olhou para seu supervisor sentado do outro lado da mesa e enquanto caminhava em sua direção não pôde se conter em abrir um grande sorriso. Um sorriso verdadeiro. Da verdadeira felicidade. Pois ele viu fogo e sangue e, por aquilo que antes chamavam de Deus, ele veria outra vez...

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Vampiros

Não sei de onde eles vieram. Uma noite eu estava andando pela rua, cuidando de meus afazeres, pensando na vida, como se diz, e eu os encontrei. No princípio foi apenas curiosidade. Claro eu sou uma garota antenada, já tinha ouvido falar deles, no meu estágio mesmo, não se falava em outra coisa, mas nunca pensei que também seria uma vítima. Consegui me manter afastada por até tempo demais. Hoje em dia é fácil encontrá-los, eles estão mesmo em toda parte e se você estiver realmente interessada não terá dificuldades. Devo dizer que não foi a primeira chance que eu tive, mas sempre me mantive afastada. Também sempre me considerei acima desses coisas, achava que eles não teriam poder sobre mim. Infelizmente eu estava enganada. Nessa noite, que havia começado tão ordinária quanto qualquer outra, eu apenas caminhava de volta para casa quando tive uma sensação estranha, um arrepio, que percorreu desde meus calcanhares até os pelos do meu pescoço. Não sei explicar o sentimento, mas eu tinha toda certeza que uma pessoa pode ter sobre alguma coisa, eram eles, podia afirmar do fundo dos meus ossos: eram eles. E do outro lado da rua eles me esperavam, imóveis, pacientes, espreitando. Estava sozinha, me certifiquei disso, de que não havia ninguém conhecido por perto, e assim fui até lá. Você deve estar perguntando: porquê alguém faria tal coisa, se entregar assim, dessa maneira? Por mais que me incomode admitir, devo dizer que já havia fantasiado com esse momento. Várias outras amigas já haviam tido experiências recentes e eu detesto ficar fora das conversas. Detesto ainda mais o ar de superioridade e os risinhos para quem elas não acreditam ser do seu nível, como os risos que na escola as garotas reservavam para as totalmente virgens. Por tudo isso eu pensei que não iria fazer mal, sem que ninguém soubesse, descobrir como era, como eu disse, só por curiosidade, para não ser excluída...
No começo foi até tranquilo. Eu os encontrava esporadicamente, nas ruas mesmo, não acreditava que meus pais aprovariam esse envolvimento, e passávamos algumas poucas horas juntos. Isso se seguiu por mais de uma semana. Eu saia do trabalho cansada, tomava um café e ia até eles. Comecei a me encantar com o seu jeito peculiar. Eles eram também realmente muito belos. Eu, às vezes, sonhava acordada enquanto trabalhava. Me pegava pensando sobre como seria sentir sua pele fria contra a minha, seu toque, seu beijo. Sonhava com eles também à noite, acordando com o coração disparado, pulsando meu sangue, cada vez mais rápido, esperava pela hora de estar com eles de novo. Quase fomos pegos algumas vezes. Alguma amiga perdida ou algum conhecido calhava de estar passando na hora. Eu me afastava correndo e, para minha sorte, eles se misturavam na multidão. Comecei a me irritar com as pessoas, se intrometendo entre meus novos colegas e eu. Já cansada de me esgueirar pela cidade, temendo ser vista e julgada, os convidei para minha casa. Achei que não faria mal. Todos os dias o ritual se repetia: eu tomava meu banho, trancava a porta do meu quarto, abria a janela e ficávamos, só nós, rindo e chorando, as vezes com uma garrafa de vinho para me fazer companhia. Sim, parece ridículo, eu contando agora, mas era realmente muito bom.
As vezes eles iam embora, desapareciam. Ficavam meses longe de mim. E eu literalmente contava os minutos que nos separavam e aguardava nosso reencontro como uma criança espera seus presentes na manhã de natal. E quando eles voltavam era doce e maravilhoso. Nessa altura eu já não tinha mais nenhuma vergonha. Não me importava com os olhares de desaprovação, com as piadinhas incessantes, com os deboches. Minhas ex-amigas me dizendo que eu exagerei, que eu fui longe demais. Sem querer copiar, mas de uma coisa eu tinha certeza: estava perdidamente apaixonada. Por um deles em especial. Pensava nele durante todo meu dia. Me vestia pensando em encontrá-lo. Me tocava imaginando suas mãos. E imaginava como seria se ele fosse só meu. Mas então ele ia embora outra vez, me deixava sem o menor pudor, e eu descobria que meu vício era ainda mais profundo, quase uma dependência. Então, eu ia atrás de outros também. Me ofereci à todos eles. Novos e velhos. Comecei a passar dias inteiros ao lado deles, como uma dama de companhia. Comecei a trocar o dia pela noite e a cultivar marcas nos olhos. Queria ser como eles, queria ser uma deles. Queria ver o mundo da maneira como eles viam.
Nesse ponto fica bem óbvio, não preciso dizer, que isso não fez muito bem para minha vida em geral. Eu logo fui mandada embora por chegar sempre atrasada e por dormir em serviço. Mas como eu poderia evitar? Essa nossa vida e esse nosso mundo não são nada comparados com o deles. Nesse ponto vocês tem que concordar comigo. Eu tinha alguns amigos que estavam interessados em mim, com um ou outro eu até já tinha avançado um pouco mais, feito até alguns planos com namoradinhos, você sabe, mas como poderia comparar? Meus padrões estão além do alcance dos homens. Um homem normal nunca teria a força e a beleza que eles possuem, nem me amaria com tanta paixão. E como eles poderiam me suportar se eu só tenho olhos para eles? Se eu daria minha vida por eles? Eu aviso porque acredito que posso salvar você. Para mim é tarde demais. Nada do que aconteceu comigo importa, eu sei que não posso ter a vida que tinha. Quando eu ando sozinha pela cidade eu espero que eles saiam das sombras e me devorem. E quando escuto barulhos em minha casa eu espero que eles venham e me tomem. Que me levem embora para sempre. Que me façam sua escrava e sua amante. Eles sugaram minha vida. Sugaram meus amigos. Sugaram meu dinheiro. E eu quero ainda mais. Quero que eles suguem meu sangue. Malditos vampiros. Se pelo menos eles existissem...

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Sacramento

Tente entender. Não foi por maldade, que Deus sabe não possuo em mim, exceto daquela vez com aquele doutor, que a bem da verdade nunca foi flor que se cheirasse e no fim acabou por se mostrar uma decisão mais do que acertada por outros motivos que nem vale a pena descrever aqui. Mas como eu dizia, o fato é que dessas moléstias mentais que as pessoas sofrem eu sempre me esquivei muito bem. Levei uma vida que se não imaculada, foi bem branquinha. Sempre paguei meus impostos, respeitei as leis e os valores morais que norteiam nossa sociedade. Em suma, andei na linha. E você sabe muito bem que hoje em dia isso não é nada fácil. Em alguns casos é até pedir muito. Olhe, não vou sentar aqui e fingir que também não sou uma pessoa normal. Ás vezes a gente fica meio nervoso, perde a cabeça, diz o que não quer, faz sem pensar, não é mesmo? E eu não fujo da culpa que me cabe. Besteiras todo mundo faz. Faz e se esconde, finge que não fez. Eu não. Falo na cara. E nem foram poucas, que Deus sabe eu tomo nota para não me acometer de repetir. E me penitencio, que sou pessoa de Deus, vou na missa sempre, comungo e confesso, que são sacramentos e eu respeito. Estou em falta na paróquia do bairro, que já tem uns domingos que não compareço, mas o pároco sabe de minha situação e com ele depois me acerto. Sim, eu sei que estou divagando, é que a gente começa a falar de uma coisa e esse cordão vai levando para outro e logo a gente acaba por se perder do fio principal. Mas eu dizia que não foi por maldade e isso posso garantir. Nem queria que tivesse sido assim, mas o que se vai fazer? O que está feito, está feito e não pode ser desfeito. Já tive um amigo que falava bem isso. Isso e um outro monte. Linguarudo que só ele. Sempre de olho no que não devia e de boca onde não podia. Vontade que dava tinha hora era de lhe cortar a língua para ver se aprendia a lição. Longe de mim fazer tal coisa, que Deus sabe que nem posso ver sangue, mas vontade dava. Boa gente esse meu amigo, morreu cedo. Nunca soube bem porque, que também nunca fui tão próximo assim da família. Mais de uma outra prima dele que eu já tive uns casinhos. Isso antes de casado no papel mesmo, lógico, mas nem falo disso para minha esposa que aquilo que é mulher ciumenta. Ciumenta e violenta ainda. Não que ela seja violenta como pessoa assim, de dia normal andando por aí, você entende. Nem sei se essa é a melhor palavra para falar, que se ela escuta isso é capaz de ficar triste comigo, coitada. Não merecia essa pressão toda. Ela é boa pessoa. As vezes passa um pouco da conta, mas isso é mais que normal na condição dela. Mas eu dizia que é difícil para a pessoa não ter ciúme. Não que eu dê motivo, que não dou, mas é que meu trabalho pede que eu me envolva com muita gente, e eu passo muito tempo fora também. Claro que o pior era minha ex-mulher. Que aparecia de vez em quando. Nunca incentivei essas visitas, mas é da vida. Até mesmo por causa das crianças. Bênção de Deus na minha vida. Minha esposa e as crianças. São tudo para mim sabe? O trabalho nem é tão bom, mas por elas eu agüento. No dia mesmo eu estava muito estressado, coisa muito ruim esse tal de estresse, estava fechando uns negócios, uns japas aí, e no fim deu tudo errado. Assim cortes na empresa pessoal sempre faz né? Triste é quando você tem que ver seus amigos irem embora também. Certo que tinham uns lá que estavam mais atrapalhando que ajudando, mas você acaba se apegando a essa gente que você vê todo dia, mesmo que no fim eles não sejam uma bolacha de caramelo. Não todo mundo, que tinha gente lá que dava para o gasto. Mas você vai por sua mão no fogo por um pessoal desse? Não vai né? E se fosse o contrário? Puxar tapete é regra hoje em dia e o que vale é o ultimo homem em pé. Eu não me meto nessas coisas, mas sei que muita gente que eu dava a mão queria mais era me ver pelas costas e eu não sou daqueles que ficam esperando a pancada. Sei lá o que uma pessoa dessas pode fazer para se vingar. E foi muita gente que alegrava o ambiente. Muita estagiaria ia sair porque o setor encolheu mesmo e esse negócio dos japas ia dar uma melhorada. As meninas estavam desesperadas e eu fico com o coração na mão com umas coisas dessas. E cada moça bonita que dava até para modelar. Você fica trabalhando até tarde, sozinho, com uma garota dessa, até difícil não pensar em bobagem. Nem falo isso alto que senão já viu. É chato isso porque se eu desse motivo para esse ciúme todo até dava para entender. Aí você se pega pensando se não está pagando sem cometer o crime. E acabou que isso foi o mais culpado de tudo. Ou você acha que não tinha nada a ver? Nem sei se ela se pega nesse pensamento de que a culpa foi dela. Eu não vou ficar aqui distribuindo culpa que é coisa que não me desce pela garganta, mas também é de se pensar se isso teria acontecido. Minha ex-mulher é que também não ajuda em nada. Sabe aquele tipo de pessoa que só emperra sua vida? É de se pensar onde eu estava com a cabeça. Mas claro que ela era muito bonita e tinha um jeito de fazer as coisas que podia deixar qualquer homem meio embaralhado das idéias. Foi época boa para mim essa, sem tanto problema nem responsabilidade. Você fica querendo voltar, mas isso não dá para fazer. Ou pelo menos sem ter que fazer uma bobagem maior. E no final nunca volta a ser o mesmo. Eu sei que fica todo mundo chocado, mas o que que se pode fazer? É tanta coisa que as vezes um homem pode acabar perdendo o chão. Muita criança para sustentar e você não tem tranqüilidade. Quer dizer, onde ficou a beleza de ser pai de família? Nunca tem nada para mim? Não que seja culpa delas, que Deus sabe que não penso assim, mas tudo sobe a cabeça e fica coisa demais pesando nos ombros. E aí cada sorriso, cada palhaçada, cada resposta, cada desobediência, cada olhar torto, cada desconfiança parece perfurar o peito e fazer o sangue correr e os olhos se afogarem. E eu até entendo o que as pessoas pensam e o que elas conversam e o que elas sentem. Isso faz parte e não digo se faria diferente se estivesse do outro lado. Mas o que eu não suporto é a acusação, o julgamento. Ora, quem irá dizer que é melhor que eu? Quem irá dizer que não existe nele o que existe em mim?

D.O.A.

- Do que estávamos falando mesmo?
- De nada, o texto acabou de começar... Na verdade, duas frases atrás nós nem existíamos.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

O Chamado das Trevas

Ao acordar estava envolto em trevas. Uma escuridão tão profunda que era quase sólida. Ela envolvia todo o seu corpo e lhe nublava, completamente, a visão. Ele podia senti-la passando por sua pele, forçando a entrada. Ele resistiu como pôde. Tentou se lembrar de dias melhores, dias em que tudo em sua vida era luz. Uma luz tão pura que era quase sólida. Mas esses dias eram por muito antigos. Já não faziam nem fagulha em sua mente. As coisas que vieram depois jogaram sombras e macularam seu espírito. E essas lembranças já não significavam mais nada. Ao sentir as trevas se apertarem em sua volta ele tentou trazer memórias mais recentes. Memórias de dias ao sol do parque, memórias de brincadeiras. Mas esses dias eram por muito distantes. Já não acendiam nem uma vela em sua mente. As coisas que vieram depois jogaram sombras e endureceram seu sorriso. E essas lembranças já não significavam mais nada. Tentou trazer a tona memória de pessoas, amigos próximos, parentes. De suas alegrias e bondades. Mas essas pessoas se tornaram por muito ausentes. Não brilhavam nem uma chama em sua mente. As coisas que vieram depois jogaram sombras e mataram sua confiança. E essas lembranças já não significavam nada. E faziam as trevas apertarem mais. Pressionar o seu corpo com seus tentáculos de escuridão. Ele podia senti-la, ele podia ouvi-la. O chamado das trevas vinha das profundezas de sua alma. E o chamava pelo nome. Desesperado tentou se apegar as memórias de amores. Amores fortes e cintilantes. Momentos de delícia e êxtase. Mãos atadas, beijos apaixonados. Momentos onde o mundo parecia perfeito e nada mais parecia importar. Mas esses amores eram por muito cicatrizes. Já não iluminavam mais nada. As coisas que vieram depois jogaram sombras e gelaram seu coração. E essa lembranças só lhe traziam dor. Agora lhe faltava o ar. As trevas enlouquecidas apertavam seu peito e lhe cortavam a carne. Ele podia ouvir. Ouvir o grito dilacerante das trevas. Afundando em seus ouvidos, se envolvendo em seu dedos e separando seus braços, abrindo sua boca e amarrando seu pescoço. Sugando as lágrimas de seus olhos, se alimentando de sua tristeza. Puxando e apertando, com toda a força, para todos os lados. A sensação era insuportável. De sua memória vieram imagens de sua vida. Da vida que ele hoje levava. Uma vida de trevas. De sombras por toda a parte. Uma vida de decepções e frustrações. Mas esses dias eram muito presentes. Nunca nem piscaram e nunca significaram nada. Ao ser despedaçado pela dor terrível ele acordou.
Ao acordar estava envolto em trevas. Elas envolviam seu corpo e chamavam seu nome. Dessa vez ele não resistiu. Agarrou com toda a sua força. Apertou a escuridão e a abraçou. Comeu, bebeu e respirou as sombras. As trevas penetraram em seu corpo. Afundaram sua pele e escorreram por dentro de seus poros. Encheram sua mente, seu espirito e seu coração. Sua vozes ecoavam por toda a parte. Agora ele era feito de trevas. Não havia mesmo nada que pudesse fazer.

Uma Ultima Hora

Ele entrou em casa como entraria em qualquer outro dia. Não havia realmente porque ser de outro jeito. Claro, havia aquela sensação. Ela o perseguiu o dia inteiro como uma sombra. Estava presa em sua garganta e na ponta de sua língua. Não era exatamente claro, mas estava lá. E quando entrou em casa a sombra esperava por ele em pé no meio da sala. Pressentindo a pergunta, a velha pergunta que todos fazem, a sombra nem lhe deu chance, dizendo:
- Eu vim por você Cézar.
Sentindo as lágrimas encherem os olhos, mas ao mesmo tampo um certo alívio, ele lançou um olhar suplicante para a figura. Ao que ela, sem esboçar nenhuma reação mais profunda apenas confirmou assentindo:
- Eu vim por você...

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Um Jogo de Sorte

Já estavam sentados por horas. Os homens estavam nervosos como nunca em suas vidas. Não era para menos. Um lance iria definir tudo. Como as coisas ficaram assim não é muito fácil de explicar. O que levaria quatro pessoas a esse extremo? Normalmente as pessoas iriam querer se deter por dias em explicações psicológicas, estudar suas famílias, analisar suas vidas afetivas e profissionais detalhadamente e debater os resultados por anos de teses de mestrado e estudos universitários. Mas se fizermos isso agora perderemos os acontecimentos. Vamos perder quando o mais velho, o homem de boné, coloca todas as suas fichas no centro da mesa. E perder o leve sorriso do homem de pele negra e olhos profundos. Vamos perder quando ele começa a tremer quando o mais jovem da mesa mostra suas cartas. Quando o velho começa a chorar e implorar. Quando o negro tenta acalmá-lo. Quando o velho tenta se levantar e fugir. E vamos perder o momento preciso quando o jovem usando uma jaqueta preta pega a arma no meio do sangue da mesa e acerta um só tiro na nuca do velho, juntando agora dois corpos no chão. Não vamos querer perder essa cena não é? Não vamos querer perder esse momento. E não vamos começar a discutir isso agora, pois logo em seguida o jogo recomeça. A arma está de volta no centro da mesa e as cartas começam a ser distribuídas mais uma vez. Cinco para o jovem de jaqueta, Cinco para o homem de pele escura e olhos profundos. As pilhas de fichas se amontoam na frente dos dois. As apostas começam de novo. As fichas mudam de mão. As rodadas se seguem. A ultima partida de suas vidas. Vejam que a situação que se apresenta é muito interessante. Nenhum dos dois pensa que pode perder. O que é muito estranho tendo em vista que somente um pode vencer esse jogo. O jovem tem certeza de que tem a vantagem, afinal, ele venceu a maioria das rodadas anteriores. Foi ele que eliminou as fichas dos outros participantes e, no final, foi ele quem deu o tiro. Seu adversário somente pegou os restos e, ele acredita, se manteve no jogo até agora por um simples lance de sorte. Mas infelizmente, para ele, as coisas não são bem assim. O fato é que o homem sentado em sua frente é um jogador inveterado e já campeão de vários torneios. A melhor estratégia, ele chegou a conclusão, é não deixar que o outro saiba o quão bom ele é. Haviam quatro jogadores na mesa e de que adiantava ele se mostrar logo de cara. Era melhor que ele se segurasse, ganhando o suficiente apenas para se manter e deixar para se revelar somente quando sobrasse apenas mais um jogador. Isso foi o que ele pensou. E isso foi o que ele fez. As duas primeiras derrotas vieram para o jovem como um acaso. As seguintes como descuido de sua parte. Depois ele ganhou algumas, o que veio a confirmar sua teoria. Depois ele ganhou outra o que o deixou mais confiante para apostar tudo na próxima rodada. E quando esses senhores dizem apostar tudo, eles o fazem para valer. Tudo corria de acordo com o plano. Dê alguns golpes, deixe ele nervoso, depois recue um pouco, pareça derrotado e então mostre suas presas. Todas as fichas no centro da mesa. Esse é o momento. O jovem mostra suas cartas, confiante em mais uma vitória. Quando o outro faz o mesmo, toda a certeza de que o mundo é belo escapa de seus olhos e é substituída pelo mais puro terror. O homem de terno pega arma no centro, sua mão morena manchada pelo vermelho. O jovem se levanta e se afasta. O problema desses jogos é que não adianta só habilidade. Existe ainda aquela conjuntura cósmica. Aquele toque divino. Aquele sorriso dos deuses. Contra isso não há nada que se possa fazer. Veja bem. A situação estava definida: o jovem perde e morre, o jogador negro leva todo o dinheiro e sua maior conquista. Seu maior troféu. O problema é que armas emperram. Talvez tenha algo a ver com deixá-las boiando em sangue. Não sei. Ele não tinha um plano B e esse foi seu erro, não podemos deixar tudo para o acaso. O jovem sim. Sem o pequeno problema da arma ele era mais forte e rápido e pulou direto no pescoço do outro fazendo a arma voar longe, derrubando toda a mesa e as fichas. As cartas se espalham pelo chão. Agora todas elas são de copas. Apesar disso o seu inimigo não nasceu ontem. Ele acerta a mão aberta no pescoço do jovem o que faz com que ele perca todo o ar. Mas nem tem tempo de comemorar o golpe bem dado porque a dor que ele sente no meio das pernas faz com ele esqueça até mesmo seu nome. Uma situação meio grosseira eu devo admitir. E tinha começado tão bem. Um jogo tão solene, tão corajoso. O jovem pega a cadeira e acerta na costas do outro fazendo com que pedaços madeira voem pela sala. Ele cata um desses pedaços e acerta a cabeça do negro. Algumas vezes. Eu posso ver a vitória em seus olhos de novo. O brilho de fogos de artifício. Ele se sente o dono do mundo. Está vivo e três vezes mais rico. Coitado. Por um instante eu até tenho pena. Só por um instante. O tiro passa bem no meio dos seus olhos. Eu estava certo, a arma estava só um pouco suja de sangue. Bastou que eu passasse o meu lenço no tambor que ela voltou a funcionar perfeitamente. Dou também um tiro na cabeça do outro homem. Não se pode ser cauteloso demais. Olho para as malas cheias de dinheiro no canto e não posso deixar de evitar um sorriso. Na verdade eu nem iria fazer nada. Mas a arma caiu no meu pé e os dois meio que esqueceram de mim. Azar deles.